domingo, 6 de abril de 2014

O que a água lhe deu

Entrou então no banheiro, fechou a porta silenciosamente. Trancou-a, tentando fazer o mínimo ruído possível. Tudo o que não queria naquele momento era ser ouvida.
Apenas depois, bem depois...
Recostou-se na porta. Inspiração funda.

Sorriu. Ironicamente. Uma lágrima brotou em seu olho esquerdo e escorreu molhando seu rosto.
Água.
-Também é água... - murmurou sozinha.
Era feita de mais ou menos 70% de água, diziam aqueles livros na biblioteca. Isso poderia explicar a razão pela qual ela se sentia tão afogada em si mesma?
Mais uma inspiração profunda. Agora para terminar de tomar coragem.
Sim, pois o medo também era um instinto. Mas como podia temer algo tão óbvio e simples?
Tudo era tão assustador e absurdamente simples. Teme-se a simplicidade pois temos medo. O medo nos complica para fugirmos da simplicidade. O pior medo é aquele do desconhecido. E era apenas para isso que queria caminhar: para o desconhecido.
Ela era simples e desconhecida. Era mais funda do que pensava ser.

A água era a origem da vida, onde tudo havia começado, dizia a Ciência. Não sabia de onde vinha e tinha perdido a noção de para onde estava indo. Estava sendo apenas levada por uma correnteza e havia se cansado de nadar contra ela. Não via mais sentido em tentar continuar.
Da água vieste, para a água voltará.
Felicidade e tristeza também seriam instintos?
Buscava agora apenas sua origem. Queria respostas.
Mas queria, acima de tudo, como sempre fizera em sua vida, testar os limites.
No fundo, não queria nada daquilo, mas achou plausível a saída mais simples, porque isso também é um instinto: a fuga.
Seria simples, e a decisão estava tomada, mas queria fugir. Evitou olhar para a enchente atrás de si.

Caminhou lentamente até a velha banheira de porcelana já amarelada. Tapou o ralo. Abriu a torneira em um rangido seco do metal.
A água fazia um estrondo em contato com a porcelana, como uma explosão. Observava-a encher. Era tudo que restava fazer. E conforme ia enchendo, ia se calando lentamente até o calmo som de água tocando a si mesma.
Queria até a última gota possível de caber ali.

Foi tirando sua camiseta branca. A calça velha. As roupas íntimas escorreram por suas pernas e caíram aos seus pés. Jogou-as num canto do banheiro gelado. Nua, sentiu um arrepio correr sua pele pelo frio.

O frio dava pontadas em seus ossos. Nua, completamente nua. Do jeito humilde e único que viera ao mundo. O fim do ciclo, como veio, queria voltar. Dirigiu-se com os pés descalços nos azulejos frios até o grande espelho. Olhou-se de soslaio. Sua pele pálida, o cabelo um pouco desgrenhado, os olhos inchados, abraçava-se, escondendo-se de si mesma. O barulho contido das águas era tudo o que ouvia.
Ainda não tinha conseguido definir se aquela era sua atitude de maior covardia ou de maior coragem...

Sem resposta, foi distraída pelo silêncio da água na banheira. O mesmo som de pequenas explosões. Rapidamente fechou a torneira.
Estava cheia até a borda.
Prestes a transbordar.
Na verdade já estava transbordada. Estava inundada. Não conseguia mais fugir, ilhada. Doía não ter mais fôlego.
Sentou na borda da banheira. Observou o vapor quente que levitava lentamente. A leve bruma que turvava toda a sua visão. Olhou a si mesma, agora refletida  na água. Aproximou-se mais de sua imagem. De si mesma. Viu-se refletida em suas próprias pupilas aquosas e narcisísticas, incolores no reflexo. Olhou fixamente para si, quase contemplando-se. No espelho da água, se viu condenada a viver consigo mesma, viu seu castigo: mergulhar em si mesma.

Coragem ou covardia?

Coragem ou covardia?

Coragem ou covardia?

Entrou  na banheira, primeiro uma perna, depois a outra. Devido ao seu volume, um pouco da água esparramou-se pelas bordas e, num estalo, espatifou-se no chão em um barulho sólido. Ficou imóvel, até a água aquietar-se e a tremulação sumir e para que uma superfície perfeitamente lisa fosse sintetizada.
Mais lágrimas esparramaram-se para fora de seu rosto. Chorou. Quase uma cachoeira. Dura, imaleável, soluçando deixou que uma daquelas lágrimas escorresse lentamente e, em forma de gota, caísse na superfície lisa. Ondas circulares se formaram deformando o reflexo do seu rosto. Chorou por um bom tempo em um ato de purificação interior. Sentia do sabor salgado da sua sujeira quando as lágrimas escorriam pelas curvas do seu resto e tocavam a sua boca. Engasgou com a água de suas próprias lágrimas. Chorou até extravasar. Chorou até seu abdômen doer e seus olhos arderem, até perder suas forças em nome de sua pureza, até perder o fôlego e sentir seu corpo entorpecido dentro da água e parar por medo de transbordar a banheira...

Aquietou-se depois do expurgo. O calor era transmitido lentamente das moléculas de água para seu corpo gelado em uma sensação de prazer. Sentiu-se acolhida, amada. Quase mais uma vez no ventre de sua mãe flutuando infinitamente no líquido amniótico. Fechou os olhos e recostou-se. Por alguns minutos ficou sem se mover. Apenas o fluxo do calor e de seus pensamento se movia. Sua respiração soluçava ainda em um resquício do choro purificador. O movimento de seus pensamentos fazia seus sentimentos corressem como um rio subterrâneo dentro de si. A pulsação ia baixando lentamente. Era possível fazer um rio parar de correr... Lembrou-se naquele momento de quando alguém lhe contara sobre os rios, que, mesmo se eles fossem represados com aquelas barreiras gigantescas de concreto, o seu curso original do continuava perfeitamente intacto sob as águas estagnadas.
Ela simplesmente não podia acreditar. Como era possível? No fim das contas, a essência não poderia ser perdida. Ela sabia que não ia ser esquecida. Não ia mais ser esquecida. No fundo, ela tinha a certeza de que fazia aquilo apenas para ser lembrada... Melhor, para lembrar-se.

Tão triste e angustiada, afundou-se com os olhos cerrados. Estava na hora de ser rebatizada por sua própria escolha. Precisava daquilo, a única coisa que a água poderia lhe dar: a purificação. Seu corpo pequeno cabia estirado no fundo na banheira. Afundou-o rapidamente sob as águas. Sufocou rapidamente sua respiração e começou a sentir a pressão. E ficou ali, imóvel, na quietude. Não ouvia barulho algum. Esperou.

Só podia esperar. Aquietou-se dentro de si, porque a superfície estava hiperativa demais. Tentava não lutar contra a situação, mas era impossível, tentava concentrar-se e não sentir o incômodo de não respirar. Cobrou-se todas as forças para lutar. Seu corpo queria sair dali. Mesmo imóvel, dentro de si utilizava-se todas as suas garras para simplesmente prevenir uma única respiração que fosse. Não era sua escolha fazer isso. Sentia o incômodo de não estar em seu ambiente natural.
Era justamente contra isso que lutava, contra si mesma. Tudo o que ouvia era sua própria pulsação cada vez mais vigorosa. A necessidade. Era uma necessidade: ela precisava respirar. Precisava. Precisava.  Precisava.  Precisava.  Precisava.  Precisava.  Precisava.  Precisava.  Precisava.  Precisava.  Precisava. Seu corpo gritava. Os punhos cerrados e ela os negava. Não. Dominava seu instinto de respirar. Não, não era isso que ela queria. Seu músculos travavam sozinhos. Não!    

Aguentava a luta contra a água. Sentia a força de si, uma força primordial, inconsciente. Sentia tudo dentro de si querendo sair. Um instinto. A maior força existente dentro de um ser vivo, era o que o fazia vivo. NÃO! - gritava no silêncio submerso de sua mente. Negava seu instinto.

Não sentia mais seu corpo tocar a superfície da banheira. Submersa em si, lutava, pois era aquilo que a água que a submergia lhe dava: a vontade de respirar.
Por consequência a vontade instintiva de viver. Ela queria o mais simples sentido da vida: o prazer de estar viva. Novamente. Não queria mais saber se era covarde ou corajosa. Não, não era isso que importava no fim das contas. Queria apenas voltar ao seu ser primordial, ao prazer e a dor de sua primeira respiração no trauma do nascimento. Não sabia se aquela atitude era boa, má, bobagem ou bela, tudo o que ela queria, no fim das contas, era resgatar-se.

Não sabia quanto tempo já estava lá em baixo. Cada vez o instinto a instigava. Física e mentalmente. A beleza do instinto que lhe obrigava a ter vontade de viver. Ela realmente achava isso lindo... Desde Aristóteles, Thales de Mileto, a Bíblia, o Alcorão, a água era o elemento primordial. A grandeza da água, e ao mesmo tempo sua leveza e sua fluidez. Um rio não banha o mesmo homem duas vezes. Um homem não é banhado pelo mesmo rio duas vezes.

E então, já sem quase em seu último impulso abriu os olhos. Viu todas as imagens desfiguradas do teto branco que parecia se afastar. Já estava sufocada, esmagada, asfixiada. Mesmo sentido seu corpo já indelével e fragilizado como se todo um oceano recaísse sobre si, ele ainda gritava que precisava respirar. Urrava. A garganta dava um nó, o peito prestes a explodir, oprimida, sentia sua matéria flutuar em uma estranha sensação de tontura. Como a angústia. Não sentia mais acima ou abaixo, flutuava no infinito, entorpecida.

O fim. Os olhos já se fechando sem o consentimento, o corpo insensível e a alma ascendendo. Só tinha mais um ato a realizar. Como sua última vontade, elevou os braços acima do corpo para a superfície como uma conduta de glorificação. Sentiu o frio e a água escorrer por sua pele aquecida, sentiu os pelos arrepiarem-se. Sentiu mais uma vez a intensidade da vida. Agradeceu a si mesma e sentiu que havia se vencido.

Sem firmeza muscular, seus braços desabaram pesadamente para as bordas da banheira. Constatou pela dor o mundo natural. Cravou as unhas nas bordas.
E pela força do instinto de inspirar, ergueu-se majestosamente à superfície. Provocando uma grande onda, imergiu suntuosa derrubando litros de água no chão em uma grande explosão num urro magnífico de uma expiração poderosa.

Tossindo, afogada com pequenas gotas, notava que uma grande onda de prazer percorria seu corpo fazendo cada molécula pulsar intensamente enquanto soltava outro urro em uma inspiração. Inspirou purificada. O mais fundo que pôde, sentindo o prazer inconsciente de respirar, a satisfação de suas narinas e de seus pulmões em fazê-lo. Não, não era de fato algo que podia controlar, isso era biologicamente óbvio. O mistério era de agradar um instinto. Como a satisfação do instinto pode ser prazerosa? Como a respiração pode ser tão absurdamente prazerosa?
Era tão absurdamente simples e prazerosa. Inspirou e respirou, primeiro desesperada. Clamava por ar desesperadamente, precisava satisfazer-se de vida. O tórax movimenta-se em descompasso,  produzindo respirações mais curtas e outras por vez mais longas, tudo para lhe provar que não estava mais afogada. Tossia e expurgava.

O ar seco provocava dores em suas narinas, como se elas estivessem sendo cutucadas por pequenas agulhas flamejantes, a mesma dor de um rebento ao ser parido, sentia o susto de ter renascido. Espirrava, inspirava e expirava. O gozo de uma inspiração satisfatória e profunda conforme cada célula de seu corpo pedia. Satisfeita, expirava. Sentia agora o carinho do ar subir suas narinas e sumir nos pulmões e então reaparecer misteriosamente de volta a elas, agora aquecido. O atordoamento ia passando aos poucos pela oxigenação. Tudo voltava a fazer sentido. A visão voltava a dar formas as coisas e ela conseguia observa-las. Seus sentidos se aguçavam.

Sua respiração ia acalmando-se aos poucos. Sentia-se bem. Sentia-se pura. Deitou seu corpo vivo sob as águas mais uma vez, deixando apenas seu rosto umedecido por pequenas gotículas de vapor para fora. Ele flutuava leve, quase navegava em calmaria na banheira. Ouvia dentro de seus próprios ouvidos o ruído árido do ar dentro de seu próprio corpo. Via a onda que o movimento de seu abdômen provocava sobre a água. Viva. Os fluídos dos seus pensamentos flutuavam leves e puros. O pequeno prazer de estar viva.

Água era vida. Chorava, mas dessa vez era de felicidade. Sorria. Expurgara o medo de si com aquela água quase benta. Testara-se e vencera. Não afogara-se e não se afogaria mais em si mesma porque havia reconhecido sua força, esse poder instintivo de simplesmente respirar. E essa era a sensação de vencer-se: sentia-se imortal. Quase havia se esquecido do quão belo era estar viva, ter um corpo, uma alma e o simples ato de respirar.
Sentia-se viva.

sábado, 22 de março de 2014

Carta aberta à Solidão

Cara Solidão,

Eu gosto de estar junto. Mas, no fundo, no fundo, eu gosto mesmo é de estar sozinha.
Talvez, no fim das contas, não seja você quem me machuque. Sozinhos todos somos. No fim das contas aquela história de que nascemos e morremos sozinhos é verdadeira.
Você, Solidão, no fim das contas, é a única companheira de cada ser humano. A única que, mesmo se formos abandonados, você não nos abandona. Tenho a ti. O quão paradoxal é isso, cara amiga?

Solidão, você sempre me foi extremamente fiel. Uma sempre tão boa amiga... No prazer dos momentos fáceis nos quais liguei meu rádio no silêncio da sala e dançamos juntas por horas e horas até nos cansarmos. No desprazer das noites mais tristes, na companhia sua e do travesseiro vocês secaram minhas lágrimas.

Na verdade, venho por meio desta, pedir-lhe as mais imensas desculpas por todas as vezes que fui injusta contigo ao culpá-la por muitas de minhas tristezas. Na verdade, você não é a culpada de nada. Você é apenas uma consequência de quem te causa.
Mas, devo ser justa, amiga minha. Às vezes você é cruel. Isso acontece quando eu não te convido para entrar, quando você não é uma escolha. Então você, meio folgada, já vai entrando lentamente pelas frestas das minhas portas e janelas, e deixando as paredes e o chão cada vez maiores e mais frios. É aí quando tento fugir de mim, mas não consigo. Não encontro mais ninguém senão eu mesma e minha mediocridade.  Não sei exatamente como, mas você muda toda a acústica dos cômodos para que minha voz faça eco e eu possa ouvir a mim mesma e perceber o quanto sou ridícula...

Solidão, você não me causa a impressão de estar só, mas sim a sensação de que não sou importante para ninguém. Você faz com que eu me sinta indiferenciada. Você deve ficar meio acabrunhada porque eu não te quis, por isso, como vingança você me faz desimportante. Por isso tenho a sensação de inexistência. Você me isola do mundo, e me rouba só para você, o que é bastante egoísta da sua parte... O seu paradoxal silêncio maléfico que faz tanto barulho. Isso é bem maligno da sua parte, devo dizer na sinceridade da nossa amizade de tantos e tantos anos.

Mas, querida, você tem lá suas vantagens se eu sei como te usar quando concordarmos em fazermos companhia uma para outra numa tarde chuvosa. Você foi quem mais contribuiu para meu aprendizado. É quando estou sozinha que consigo parar, pensar e entender as coisas. É no silêncio que conversamos e você me aconselha com sua sabedoria transparente. É na solidão que eu digo a mim mesma o indizível pelo seu sopro de Verdade. É no escuro do quarto, no canto da cama que posso assumir a mim mesma minhas dores depois de já estar cansada de negar suas existências para o mundo ao redor. É com você que choro até me engasgar e minha mandíbula doer. Ao poder dizer isso a alguém (no caso você) sei que não serei julgada, comentada, apontada, crucificada, amada ou odiada por alguém a não ser por mim mesma. E isso cura, porque depois não é tão difícil dizer ao resto da realidade o que está acontecendo.

Isso sem contar aquela velha história do "amor-próprio". Foi com você, na sua presença, que aprendi a ser feliz comigo mesma. Se sabemos ser felizes com nós mesmos então saberemos ser felizes com qualquer outra pessoa. É na sua presença que eu vivo uma liberdade única. Solitária, eu posso fazer o que quiser, posso me libertar. Só consigo ser eu mesma de uma forma perfeita com você e mais ninguém. Creio eu que o único momento em que um ser humano é ele mesmo plenamente é quando ele está sozinho. É aí que somos o que queremos e podemos ser.  

Nossa amiga em comum, Clarice, diz que "sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas pois eu também sou o escuro da noite." Nós também somos. É sua onipresença que me encanta, no claro das noites e no escuro dos dias. E essa é a única prova que eu tenho de que somos eternas e infinitas.É na solidão de ti que te escrevo. No meio de tantos anônimos por aqui, você ainda é o único rosto conhecido que me resta. Ao olhar-me no espelho te vejo sempre.  No meio de todos aqueles idiotas, você era a única que me compreendia como eu mesma.
Quando estou solitária e acabo por ser minha única companhia, você sou eu, e eu sou você.

Porque no final não me resta nada a não ser eu contra mim mesma. E você também, junto a mim, claro!

Obrigada por tudo, querida amiga.
Obrigada!
Sou minha.

Da sua,

M.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Eu existo!

Não sou política, mas sim poética;
Não sou protocolar, mas sim pessoal;
Não sou apenas uma presença, mas sim uma paixão;
Não sou perfeita, mas sim preocupada;
Não sou ponderada, mas sim polêmica;
Eu persisto;
Eu existo!

terça-feira, 10 de setembro de 2013

A mudança

Estou no meio.

No meio de uma mudança.
Eu já devia de ser forte, mas ainda sinto-me frágil como uma criança.
O incômodo infindável de não conseguir se acostumar com o que trás uma transformação não planejada. Paradoxalmente como uma velha apegada.

Estou no meio.

Eu não sei lidar, não sei ao certo como jogar.
Sinto tanta culpa e ao mesmo tempo feita de tolo.
Perdi o controle.
Eu não sei nem ser firme, nem ser frágil. Nem ser esperta, nem inocente.

Estou no meio.

O meio é o olho do furacão.
Deve-se ser a mudança que se quer ver.
Não sei ser o que realmente devo ser.
Se é que devo de ser...

Estou no meio.

A mudança inesperada é o princípio da dúvida.
Que devo eu fazer com o destino novo em minhas mãos?
Tenho apenas duas
E todo o medo do mundo....

Estou no meio.

Olho o passado tentando buscar respostas para o presente.
Tento olhar o futuro para buscar esperanças para o presente.
Mas nada consigo enxergar na bagunça das caixas e de tudo o que mais amo empacotado
Pois não quero deixar nada que estimo para trás.

Estou no meio.

Fica a saudade.
Um apego confortável a realidade.
Se até as estações mudam,
Como eu não consigo mudar?

Estou no meio.

Se tudo é novo
Como vou saber em que devo confiar?
Deus? Mãe? Freud?
Drogas psicotrópicas para amortecer e acalmar?

Estou no meio.

A trajetória até o fim da mudança
É confusa e sofrida.
Devo libertar quase tudo que acredito
Para resignar-me ao que o orgulho não me deixa ver.

Estou no meio.

Nada permanece, exceto a mudança.
Tudo muda nesse mundo.
Mudança é progresso
E o inteligente é aquele que sabe adaptar-se a elas.

Estou no meio.

Temem que as coisas nunca mudem.
Eu confesso que temo a mudança.
Tudo mudou.
Menos eu, que não consigo fazê-lo.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Sobre homens e ratos

...E então ele levantou-se lentamente e veio em minha direção.
Senti-me contraído por todos meus músculos.
E então ele olhou nos meus olhos, com raiva, desafiando-me, e perguntou de forma ameçadora:
- Você é um homem ou um rato?
Ratos não correm em diagonal, vão rápidos e faceiros pelos cantos do cômodo, amedrontados, pelos rodapés das paredes...
Eu sabia que era o mais fraco de todos ali presentes, isso era evidente. O menor. O sem-coragem. Mas eu era tanto assim ao ponto de ser taxado de rato?
Sim. E fiquei indignado por ser visto assim. Ora, eu não era tão ruim assim...!
Mas, pela primeira vez, passei a considerar a hipótese de eu ser um homem.
Quiçá eu não fosse mesmo?

Então, estufei meu peitinho infantil e magro e bradei:
- Um homem!
Fiz isso o mais rápido que pude para que ele não percebesse que eu tinha parado para pensar na resposta. Mas não olhei nos olhos de ninguém ao redor quando o respondi. Ainda sentia-me tenso. Tive medo que eles percebessem que eu poderia estar mentindo...
Eu estaria de fato mentindo?
Para eles ou para mim mesmo?
O medo me abateu novamente e senti-me um rato.
Eu era um homem ali engaiolado correndo numa rodinha de metal? Correndo sem sair do lugar...

Ainda em pose de coragem e com uma sobrancelha arqueada para dar mais ênfase de caricatura na minha resposta, desviei minha visão para poder ver os olhos que me encaravam naquele momento.
Percebi que de certa forma, eles acreditavam em mim.
E eu acreditei que seria muito mais do que eu merecia.
Mais do que eu acreditava em mim propriamente.

Talvez olhassem para o meu futuro e profetizavam-me como homem.
Teria o intuito daquela pergunta me provocar? Aquelas coisas de psicologia reversa... Me motivar por meio de uma provocação para que provasse para ele que eu não era rato coisa nenhuma.
De certa forma, deu certo. Quem quer ser um rato?

Era eu mais complexo que um rato? Poderia ter eu a concepção de ser um ser racional? Construí as pirâmides do Egito e a Grande Muralha da China. Toda a minha força, minha vontade, minha coragem que eu ainda poderia desdobrar a dominar o mundo como um deus... Não sabeis que sois deuses? Um espírito infinito? Imortal!
Estufei meu peito agora como se fosse Hércules! O poder e a força dos Homens passadas por todas as eras para que eu possuísse-as!

Estava quase me sentido um pregador do Antropocentrismo quando percebi.

O homem tem medo de rato. Musofobia. Minha divindade acabou-se repentinamente.
Era eu então um rato. E dos bons.

De fato, eu tinha um certo medo de ratos...

Eu detinha a força, mas não sabia como usá-la. Toda a inteligência e a esperteza pode ser derrubada rapidamente pelo golpe mais simples e baixo.

O medo. Mais primitiva e animalesca parte de mim.

Um grande rato eu era? Um pequeno homem?

-O que é que foi? Por que esse silêncio? ME RESPONDE!
Desviei meus olhos para o chão, consciente de minha situação:
-Todo homem é rato. - disse.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Um dia ruim

Nada como uma fim de tarde de quarta-feira
com uma chuva gélida caindo nas costas.

Já não basta ter esquecido o guarda-chuva em casa,
o grande ônibus precisa passar pela poça d'água na sarjeta
e me molhar inteiro...

terça-feira, 9 de abril de 2013

Sentimento do mundo grande

(em homenagem à Drummond)

Cheguei aqui tendo apenas duas mãos
e o sentimento do mundo.
O mundo meu.
Mas hoje, ainda aqui,
vejo que o mundo não é meu,
não, meu coração não é maior que o mundo,
É muito menor.
E eu preciso de alguém
para ir de mãos dadas.

A tempestade

Os trovões dão o tom de fúria em descompasso. A chuva dança com força com o vento.
Me tomo de medo e de uma alegria súbita. Tempestades me assustam e me encantam, são monstros adormecidos que violentamente vão acordando.
Sem eletricidade, apenas os relâmpagos iluminam-me numa fração de segundo.
Ela solta seus raios e trovões. Quero estar lá fora, sentindo-a. Mas sinto medo, muito medo.
Os rebentos ribombam dentro do meu peito. Ela vai nascendo aos poucos dentro de mim. Ela cresce no âmago. Amo-a e temo-a. Respeito. É uma divindade, não se pode compreendê-la como benigna ou maligna. Ela existe e só o que me resta é resignar-me à seu poder.
Sinto-me viva. Paro para observa-la e escutar tudo o que ela tem a dizer.
Ela é poderosa assim porque é inesperada, o que faz dela um ser extremamente autêntico. É o seu repente que a faz grandiosa: rapidamente forma-se, rapidamente acontece e mais rapidamente ainda vai embora.
Deixa sua marca e seus restos, não se sabe se é raiva ou piedade. Às vezes acho que ela é tão sábia causando toda a destruição para que possamos então nos reconstruir melhores e mais fortes.
A tempestade impõe-nos respeito e mérito: qualquer um que saia ileso à ela é considerado herói por seus próprios méritos, pois já mostra-se um ser forte por natureza.
As suas gotas arrebentam nos vidros, estralam e param por uma fração de segundo. Escorrem e derretem-se lentamente. E então, tudo vira uma pintura Impressionista no lado de fora do vidro para quem vê do lado de dentro. Arte da Natureza e tudo se desvirtua do caminho inicial.
O traço da gota que escorre lentamente pelo vidro e eventualmente tem seu caminho delicado desviado pelo vento violento e entorta-se possuído pela falta de controle sobre si.
Tudo se desvirtua do seu caminho e tudo se molha, derrete e se desfaz. Toda linha reta fica torta à seu sadismo.
Mesmo estando protegida, sinto-me desamparada durante uma tempestade. Tudo ao redor silencia-se em suas próprias coragens egoístas. Tudo ao redor silencia-se para ouvi-la e para tentar se proteger e se esconder dela.
Mais um trovão bate no infinito e o rompe. Onde é que seu eco vai parar?
Quando é que ela vai parar?
Não, eu não posso controla-la. Não posso controlar o infinito.
Não posso sequer me controlar...

domingo, 3 de março de 2013

Certeza

Eu sei que a dúvida é consequência da surpresa,
ainda mais num momento de não tão belos detalhes em riqueza...
Mas deixe de lado essa falta de beleza,
com seus dedos cheios de magreza
pegue minha mão com leveza.
Sua respiração que se move com delicadeza,
e com essas suas pernas com falta de firmeza
venha até mim apenas com uma certa moleza,
neste momento não há porque se fazer de frieza,
esconda toda a vida e toda a dureza
esqueça toda a pobreza
com seu sorriso de alegria acesa.
Sei que você sentiu o mesmo em tamanha profundeza.
Venha pra cá com toda sua miudeza.
Na forma de sutileza,
traga-me sua pureza
e seu coração com sua ainda não-descoberta nobreza,
deixa eu ser sua fortaleza,
deixa eu afastar sua tristeza,
deixa eu mostrar sua grandeza.
Vejo-nos para sempre com tanta clareza,
e mesmo que isso cause tanta estranheza,
apesar daquele momento ter sido de tanta breveza
te prometo realizar uma grande proeza:
deixe eu ser apenas, nada a mais e nada a menos, que sua certeza.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Árvore genealógica

Se meu bisavô não tivesse vindo da Áustria para cá,
que não via necessidade em tomar banho todo o dia porque não era 'luxento',
ele então não conheceria minha bisavó aqui no Brasil,
e eles não teriam tido meu avô como filho.
E se meu avô não tivesse desistido de ficar com suas cinco namoradas,
para ficar com a sexta que era a minha avó,
ela não teria vindo de São Paulo para o interior para viver com ele,
quando lhe enviou uma carta dizendo que 'casar-se-ia' com ela.
Isso porque ele ainda a amava,
mesmo depois de ela ter recusado um beijo dele dentro do carro na porta de casa.
Se isso não tivesse acontecido,
minha avó teria se formado.
Se eles não tivessem se conhecido, minha mãe não teria nascido...

Se minha bisavó Clélia não tivesse querido ter seu filho,
mesmo ele não sendo legítimo por parte de pai,
mas nada disso ocorreria se meu bisavô não tivesse vindo da Itália,
Meu avô não teria existido.
E ele não teria conhecido minha avó,
e meu pai e meus tios não teriam existido.
E se eles não tivessem rodado por
Presidente Wenceslau, Tatuí, Cruzeiro e provavelmente algumas outras cidades
pra voltar pro interior no fim das contas,
meu pai não teria voltado pra lá depois de ter se divorciado da sua primeira esposa.

Se meu avô materno não tivesse deixado minha mãe ir morar em São Paulo quando ela fez dezoito anos,
se ela não tivesse feito faculdade,
se ela não tivesse acabando de morar sozinha,
e não poder arcar com o aluguel
e ter que voltar também para o interior,
ela não teria encontrado meu pai.

E se eles não tivessem se encontrado,
eles não teriam ficado juntos
e
no fim das contas, pra resumir a história,
eu, infelizmente, não existiria...


quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Resignação

do Michaelis
resignação
re.sig.na.ção
sf (resignar+ção) 1) Ato ou efeito de resignar ou resignar-se. 2) Cedência voluntária. 3) Demissão voluntária da graça recebida ou do cargo exercido; renúncia. 4) Sujeição paciente às amarguras da vida; conformação com a dor física ou moral; paciência no sofrimento.
de uma livre interpretação
aceitação com o coração, no coração, não apenas pelo que a lógica e a racionalidade oferecem.
o mais difícil.

a grande prova de confiança e fé naquilo que está ocorrendo é para um Bem Maior que se dará num futuro. 

A condição humana

Não, isso não é consolo. Mesmo parecendo desumano, a dor é de nossa condição humana.
Ela precisa ser sentida para que possamos apreciar o alívio em toda sua plenitude.
Assim como o medo, caros humanos. Sentimo-lo em momentos que sentimo-nos ameaçados.
O medo é nossa proteção. É a guarda para que minimizemos as besteiras que costumamos fazer. Típico também da condição humana.

Tão típico de nós...



segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Explicando a náusea existencial

Enjoo de tudo ao redor. Pode-se sentir seu próprio cheiro. Um mal-estar que é sentido quando tem-se a mais plena consciência de que você realmente existe. Quando você entende que você existe. Cada tecido, célula, molécula, átomo, próton, elétron e nêutron, você consegue sentir cada um deles. Todos vivos; você vivo.
Torna-se plausível à pobre razão humana a grandiosidade de que tudo, absolutamente tudo, é concreto: de que você é concreto, sua alma é concreta, as estrelas, os buracos negros supermassivos, o universo, os ácaros, as bactérias e os vírus.
Sente-se grande e poderoso e, ao mesmo tempo, minúsculo e inferior. É esticado e puxado ao mesmo tempo. Não faz muito bem ao estômago essa sensação, nem ao equilíbrio. Náusea. 
A compreensão de que o mundo ao redor é real: é puro, bruto e concreto, não é uma invenção, sequer uma ilusão. A visão fica um tanto turva, há uma tontura, a impressão que vai cair ou de cara ou de costas no chão, ou os dois ao mesmo tempo... Isso ocorre porque todas as ilusões sobre a vida desaparecem, pois é o momento crucial em que enxerga-se o ambiente ao redor como ele o é: real, irracional, ilógico e até mesmo cruel . Muito cruel. 
As expectativas relacionadas ao futuro desaparecem. As memórias relacionadas ao passado parecem ser uma mera criação de sua cabecinha. Sonhos somem. Tudo é verdadeiro e nada mais. O sangue pulsa nas têmporas. Só o que passa a ter existência no mundo dos sentidos nesse momento é você e o momento. Os sentidos são sentidos em sua máxima potencialidade, todos os cinco ao mesmo tempo; tão fortes que se anestesiam em uma dor prazerosa. 
Segue-se então para uma fase de negação. Ânsia de vômito. Tenta-se negar com veemência a Realidade; uma vontade instintiva de fuga do local pois as paredes do cômodo em que essa situação se dá parecem ter, em média, de 5 a 6 metros de altura, além de parecer que elas estão comprimindo-se sobre seu corpinho. Aliado à essa vontade de vomitar, sente-se um tanto de medo. Claustrofobia, ágorafobia, e claustrofobia de novo e vontade de gritar, de horror e de pavor. 
Com isso, sente-se uma certa tontura ao descobrir a imensidão do universo lá fora e saber que ela existe, mas não conseguir dimensiona-la no seu pobre cérebro humano. E ainda também descobrir que você faz parte dele. Sim, os joelhos tremem. Tristeza e felicidade se misturam. Falta ar, ou toda a quantia de ar é exagerada e parece querer ser aspirada toda de uma só vez pelas narinas ínfimas. 
E então, o grande susto, quando sente-se uma pressão no topo de sua cabeça. Ao olhar-se em seus próprios olhos, num reflexo de espelho, de poça d'água, do que quer que seja, você finalmente entende que não há apenas um universo lá fora, mas sim um também dentro si próprio. E um dentro de cada um ao seu redor. São milhares, milhões de infinitos imensuráveis ao redor de seu infinito, dentro de infinito que é o universo em que existimos.
Você descobre então que há explosões dentro de você. Descobre que você também é um deus ali naquele pequeno sem-fim...
A partir desse momento, duas coisas podem ocorrer: a primeira é ignorar e negar tal fato por temor a si mesmo e sua potencialidade, já que, humildemente, na consciência de sua condição de ser humano, tem medo de fazer alguma besteira com isso; ou até mesmo por não querer uma grande responsabilidade. A segunda é enlouquecer por completo. Pode-se também viver no meio dessas duas situações, o que causa extremo sofrimento, não aconselho essa opção.
Feita a escolha, um pouco de tontura ainda pode ser sentida até que todas as ilusões, quase para sempre perdidas, possam ser recuperadas. Se a opção for pelo primeiro caso citado acima, você seguirá sua vida como se nada tivesse ocorrido e guarda essa epifania como um segredo trancafiado às sete mil chaves, o qual jamais será compartilhado com alguém. O indivíduo poderá seguir sua vida, ou fingir segui-la, mas ele sabe que não é mais o mesmo e nunca mais verá as coisas do mesmo jeito. Provavelmente terá algum tipo de problema fisiológico relacionado à gastrite. Se, em outras condições, a opção for pelo segundo caso, gostaria de parabeniza-lo pelo ousadia e por estar caminhando em direção à sua perfeição.

domingo, 30 de dezembro de 2012

Coisas que eu gosto:

dia ensolarado de inverno;
beijinho na testa;
suco de melancia;
sentir preguiça num dia chuvoso;
comprar livros;
tomar banho ouvindo música;
dar risada em solenidade séria;
girar, girar, girar até ficar tonta e cair no chão;
ouvir a Nona de Beethoven;
acordar depois de ter tido um sonho bom;
comer comida boa;
dormir em uma cama gostosa com um travesseiro de penas;
gatos se espreguiçando;
tomar vinho com a minha avó;
poesia;
prosa;
sugar resto da bebida no fundo do copo com o canudinho;
gente que me ajuda, mas que eu nunca imaginei que fosse um dia fazer isso por mim;
pintar as unhas de azul;
enfiar um monte de comida na boca;
espirrar;
colocar a mão no saco de grãos no mercado municipal;
andar descalça na grama;
jogar coisas pela janela do meu apartamento;
cabelo bagunçado pelo vento;
entrar no meu guarda-roupa e fechar a porta dele comigo dentro;
passar o dedo na chama da vela;
ironias que falam quando estão de mau-humor;
molho agridoce;
barulho da xícara batendo no pires;
aquelas ondas circulares de quando uma gota de chuva cai em uma piscina;
enrolar a fita métrica da tia Dirce só pra joga-la pro alto e desenrola-la;
picolé;
fotos antigas com pessoas desconhecidas;
Ciências Humanas;
ficar sozinha;
cheiro de maresia;
escrever meu nome completo com várias tipos de letras;
andar sem roupa em casa;
todo e qualquer tipo de expressão artística;
andar na Paulista;
segurar a respiração debaixo d'água, pra depois, ao voltar pra superfície, sentir o alívio de respirar;
batom vermelho;
pessoas que encostam a cabeça na janela do vagão do trem;
cheiro de fruta na quitanda;
assistir ao jornal na tevê;
escrever nas paredes;
ficar em silêncio;
falar pouco;
óculos;
olhos verdes;
pele pálida;
observar o comportamento de quem senta atrás de mim no cinema e no teatro;
dragões;
Alice no País das Maravilhas;
mitologia;
folhear revistas de trás pra frente;
pizza;
fotografar flores;
gérberas vermelhas;
roubar raspinha de chocolate de cima da cobertura do bolo;
garrafas;
almofadas;
canecas;
trilhas sonoras de filmes mais do que os filmes propriamente;
casacos;
All Stars;
a Lua;
asas abertas;
bilhetinhos que a minha mãe deixa pra que quando eu acorde eu saber onde ela foi;
folhas secas caídas no chão;
xícaras;
pimenta;
lápis de cor;
cores do fim da tarde;
forma das nuvens;
barulho de máquina de escrever;
ficar olhando pras estrelas;
gente que sabe muito e mesmo assim tem humildade pra ensinar;
morder bochechas;
ter uma nova ideia;
x-egg-bacon-salada;
voz macia;
cheiro de papel;
roupa de brechó;
ficar imaginando coisas;
observar pessoas desconhecidas;
ficar inventando histórias sobre as vidas delas;
chapéus;
gente bem-resolvida que faz terapia;
camisetas;
piscinas;
ir ao supermercado e entrar no carrinho;
barulho de trovão;
obras surrealistas;
gente que não fica tentando ser alguma coisa;
desenhar no vidro embaçado;
cabides;
tintas;
chaveiros;
incenso;
suco de laranja com gelo e açúcar;
gente que se faz de fria porque ama demais e se utiliza desse artifício para não sofrer muito;
prédios;
respirar;
roupas pretas;
regras de três;
gente que não sente a mínima necessidade de explicar seus atos;
amigos que chegam na minha casa e abrem a minha geladeira;
ir ao sítio da tia Ana;
dançar no metrô;
qualquer mulher que tenha "Maria" no nome;
cheiro de pó de café;
tecidos estampados;
lâmpadas de Natal;
passar madrugadas acordada;
e dormir de dia;
roupas que não apertam o quadril;
cozinhar para mim;
chá de canela e gengibre quando tenho gripe;
epifanias;
fazer xixi;
trocar olhares;
gaiolas vazias;
andar à pé;
pracinhas de cidades do interior;
Kombis;
escadarias;
sentar debaixo de árvores;
quintas-feiras;
alongar as pernas;
ouvir conversas alheias das pessoas no transporte público;
moletom com capuz;
pão com requeijão;
combinação dos instrumentos do Tango;
me imaginar jogando um sapato nas pessoas com as quais eu não simpatizo;
passar perfume de lavanda depois de tomar banho;
fingir que eu sou o maestro enquanto ouço música clássica;
cortar o cabelo;
desenhar;
cortinas movimentadas pelo vento que vem do lado de fora;
demonstrações de afeto em livrarias;
cultura inútil;
falar sozinha;
sair de pijama na rua;
e só.




sábado, 1 de dezembro de 2012

Sentido

Fazia um pouco de frio, mas só um pouco. O cobertor cobria-me até o pescoço.

Em minha companhia, apenas o estranho barulho da minha digestão. Não havia mais nenhum outro barulho em mim. Nem sequer uma música com letra irritante e repetitiva.
Apenas o silêncio que me fazia ouvir o barulho do ar sendo deslocado pelos carros em alta velocidade em uma rua ao longe. Mas isso longe, bem longe. Longe mesmo.
Eu não me movia. Fiquei ali, simplesmente intacta. Os impulsos nervosos pareciam não existir. Não conseguia ouvir nem a minha própria respiração, de tão quase ausente que ela estava. Respirava (respirava?), eu, levemente, não sentia meus pulmões inflarem, nem o ar entrar ou sair pelas narinas. Não sentia o movimento do meu ventre empurrando a superfície.
Eu não sentia nada.
Um corpo que está imóvel tende a permanecer imóvel.
Entrelacei meus dedos. Não senti minha própria força nem o toque dos meus dedos. Nem meu próprio toque. Então soltei-os.
Abri meus olhos, e mesmo assim, tudo estava escuro. Fechei meus olhos e tudo continuou existindo escuro.  Na verdade, nada estava existindo ali. Na verdade, tudo continuava a existir, menos eu. Continuei olhando para o teto.
Não conseguia pensar em nada. Associações livres sem sentido e sem graça. Não estava conseguindo nem sequer criar alguma coisa divertida, para que eu pudesse pensar com um cérebro endurecido.  Meus pensamentos não conseguiam sair dali.
Constatei, milagrosamente, que nada fazia sentido ali. Lembre-me então que se eu repetisse uma palavra várias vezes ela também perderia o sentido. Pensei em uma colher.
Colher. Colher. Colher. Colher. Colher. Colher. Colher. Colher. Colher. Colher. Colher. Colher. Colher. Colher. Colher. Colher. Colher. Colher. Colher. Colher. Colher. Colher. Colher. Colher. Colher. Colher. Colher. Colher. Colher. Colher. Colher. Colher. Colher. Colher. Colher. Colher. Colher. Colher. Colher. Colher. Colher. Colher. Colher. Colher. Colher. Colher. Colher. Colher. Colher. Colher. Colher. Colher. Colher. Colher. Colher. Colher. Colher. Colher. Colher. Colher. Colher. Colher. Colher. Colher. Colher.
E a "colher" não perdia sentido. Continuei insistindo, colher, colher, colher, colher, colher, mas não adiantava. Até a colher me fazia sentido e eu não.
Questionei-me por que eu havia pensado em uma colher, afinal. Quanto mais eu pensava em um sentido, quanto mais eu tentava analisar minuciosamente cada existência do que quer que fosse naquele cômodo, menos sentido fazia. Não havia lógica nenhuma que convencesse meu raciocínio.
Sentido, sentido, sentido. "Sentido" não fazia mais sentido.
Nada fazia sentido, tudo não fazia sentido.
Olhei as horas no relógio de cabeceira. Zero-zero e vinte quatro. Zero-zero e vinte cinco. Zero-zero e vinte seis. Sete, oito, nove... mil. Contei até mil.
Continuava sem sono. Continuava esperando uma resposta. Mas qual era mesmo a pergunta?
O teto era pouco interessante e as paredes pouco inspiradoras. Eu estava me sentindo bem? Ou isso era sentir-se mal? Realmente, eu estava sentindo alguma porcaria?
Não estar sentindo nada, era, afinal, sentir alguma coisa? Porque, mesmo que eu não estivesse sentindo nada, era sentir alguma coisa sentir nada.
Será que eu ainda estou viva?, perguntei-me e não soube responder.
Olhei as horas mais uma vez. Uma e pouco. Pelo menos alguma coisa havia se movimentado nesse meio tempo: o tempo.
Tudo se apagou.
Abri meus olhos, surpresa pelo fato de abri-los. Não havia percebido em que momento os fechara. Tentei buscar na falha memória minha onde é que eu estava. Em verdade, eu só havia percebido que tudo estava apagado, que eu estava apagada quando acendi. Cochilei?
Ou deixei de existir por alguns minutos?
Dei-me conta, então, que eu havia conseguido não sentir nada, mas sim o Nada, porque eu estava vazia.
Eu tinha conseguido sentir. SENTI!

E então, aconteceu de repente, entre um segundo de descoberta e outro, totalmente imprevisível.

Assustei-me.
Um ronco molhado ribombou em meu estômago. Senti algo estranho, como se ele estivesse se espremendo em si mesmo. Senti! SENTI! Eu havia conseguido sentir algo! Sorri alegremente.
Imobilizei-me por mais alguns segundos para ver se conseguiria sentir de novo. E consegui! O estranho órgão retorceu-se de novo e, dessa vez, ainda senti um gosto amargo e azedo em minha boca. Respirei fundo.
Senti-me, então, feliz. Tão feliz! Tão plena e tão lógica. Tão viva, sim, havia conseguido a confirmação: eu estava viva. Jamais esperaria que algo assim ocorresse, mas já que ocorreu, fiquei resplandescente em acatar tal acontecimento. Fui libertada daquela inércia. Tudo reviveu em mim. Um arrepio. Um sorriso. Eu conseguia sentir, e repentina e surpreendentemente, tudo voltou a fazer sentido.
Estava tendo uma epifania. Senti uma dor em minha barriga. Um pedido, um instinto, eu não estava extinta, ele dizia. Senti vida, passado, presente, futuro.
Olhei para o relógio ainda mais uma vez e não me importava de maneira alguma que horas eram. Me descobri, sentia calor!
Conseguia ouvir aquele barulho maravilhoso dentro de mim.
Fui ressuscitada, o ar me inspirava! Levantei-me corajosamente. Precisava de uma colher, rápido, iria comer uma fatia daquele resto de bolo na geladeira.
Eu sentia! E que maravilhosa sensação!

Sentia fome.






quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Gente que reclama

Gente que reclama do calor.
Gente que reclama de gente que reclama do calor.
Gente que reclama de gente que reclama de gente que reclama do calor.

sábado, 27 de outubro de 2012

Sampa II

Na verdade, nada aconteceu no meu coração quando cruzou a Ipiranga e a avenida São João.
Meu coração já entendia tudo quando eu cheguei aqui. Acho realmente bela sua poesia concreta, e as tuas meninas são elegantes sim!
Vejo meu rosto perfeitamente, frente a frente, pois sou mutante. Não acho nada disso mal gosto, pelo contrário, Narciso aqui acha extremamente belo a grandeza daquilo que não é espelho.
Foi um fácil começo, aproximei-me de tudo aquilo que não conhecia e hoje conheço. Era meu sonho de cidade, minha feliz cidade, minha feliz realidade.

Mas, nada disso importa. O que realmente me preocupa é nada, absolutamente nada aconteceu no meu coração quando cruzou a Ipiranga e a avenida São João...  Isso é mau sinal. Significa que me deixei levar pela frieza de tua garoa.
Tornei-me mais uma, apenas mais uma dentre os outros. Fui oprimida. Tornei-me mais uma dos seus, Sampa, que nada acontece mais no coração, que não tem mais coração, daquela pior estirpe que sempre está com pressa e buzina.

Sinto que não tenho mais paciência. Nem o calor e a quentura que emana de suas ruas contidas de concreto me aquecem. Nada mais aquece meu coração. Não consigo mais chorar nem ter piedade. Passo pelas pessoas jogadas nas esquinas e apenas ignoro-as. Tem coisa pior do que ignorar? Tem?
Você me obrigou a ser autossuficiente. Você me obrigou a ser solitária.

Passeio solitária por sua garoa e isso não me incomoda. Nada mais acontece em meu coração.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Fim de Setembro, começo de Outubro.

Confins de Setembro. Começo de Outubro.
Um pouco mais a frente, mais da metade já se foi, mas não por completo. Ainda não é nosso fim.
Nunca em minha vida pude sentir esse "clima de romance" da primavera. As manhãs são tão frias. E as tardes quentes.
De qualquer forma, sempre levo comigo um casaco. Um abrigo. Às vezes chove.
Já estamos todos cansados, já pendendo para o desânimo. Um pouco entediados com a programação da tevê, confessemos, porém não nos damos ainda o direito de perder a coragem por completo. Não nos cabe esse dever ainda...
Em alguns casos ainda há um resquício de esperança.
No espírito, as memórias, moldadas pela nossa subjetividade, pelo orgulho, pelo medo e pela vergonha, as lembranças dos meses passados. No olhar, a expectativa de um futuro que fingimos ser certo, mas, na realidade, é extremamente incerto. Nem bom, nem mau. Planos para o presente de Natal, talvez.
Ficamos neutros. Ficamos estagnados.
Há insegurança em dar um passo para frente. Há pavor em tentar dar um passo para trás. Assim fica difícil de se ver as flores, essas tais flores...
Precisa chover, para limpar o mundo, nos limpar, por dentro e por fora.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Gauche

Quando nasci, um anjo reto
Desses que vivem na luz
Disse: Vai, menina! É aquele ali que vai te cuidar...

E apontou pra um outro anjo
Ali ao lado,
Que voava meio torto
Porque tinha uma asa meio machucada
E umas penas faltando,
Mas eram asas gigantescas!

Tinha um sorriso debochado
E uma alegria no olhar
Como se já soubesse tudo da vida
E da minha vida.

Talvez, de fato, ele soubesse...
Talvez ele não soubesse de nada...

Ele não era do padrão típico de anjo
Isso eu já sabia.
Mas ele me passou tanta confiança...
Foi então que ele me confessou com muita sinceridade:
- Vem, menina!
E eu fui. Ele continuou:
- Quando eu nasci uma vez, um anjo torto
Desses que vivem na sombra
Disse: - Vai! ser gauche na vida.

Continuei observando-o sem entender muita coisa.
- Eu estou aqui - continuou ele - pra te ajudar
Porque você também vai ser gauche na vida.

Então eu perguntei:
-Quer dizer então que eu vou ser poeta também?
Então ele respondeu:
-Sim!

Ele me disse para não ser poeta de um mundo caduco
E para também não cantar o futuro
E para considerar a enorme realidade.

Fiquei muito assustada no começo.
Mas logo passou
Porque o tal anjo pegou minha mão e me levantou:
-Vamos de mãos dadas!


sábado, 22 de setembro de 2012

Curiosidades

Padeço de curiosidade. Tenho sempre de ir e ver com meus próprios olhos e nada mais.
Questiono-me devido a esse fato:
- Sou uma daquelas eternas aprendizes
OU
- Sou uma completa idiota?